São 2:48 da manhã, toca o despertador, e eu com olhar cansado e meio atordoado, porém com coração acelerado e ansioso, levanto-me correndo, visto um casaco de capuz, calças largas, tênis, e carrego comigo duas latas spray de tinta na cintura. E vou à procura de espaços vazios na cidade para eu enfim depositar minhas emoções em forma de arte urbana.
Entre os parâmetros arquitetônicos dos prédios, casas, marquises, bancas, praças, e muros de locais abandonados, sob a linda luz da Lua, sereno e admirável piscar de estrelas, procuro lugar onde eu possa escrever tudo, mas nunca dá, pois nenhum é grande o bastante. Então vou em um lugar de cada vez, escrevo no primeiro: ''O amor é calor, o ódio é frio e a poesia é a dor que revela por trás de tudo''; e no outro eu escrevi: ''Eu prefiro ser frio nessa cidade e quente contigo'', e na consecutiva foi aparecendo coisas na minha cabeça e a rapidez de jogar frases foi impressionante, e quando noto, já gastei quase toda uma lata. Passou uma senhora com um um carrinho cheio de coisas na rua e me me disse: ''Boa noite moça'', retribui.
Andei mais um pouco e peguei outra lata e pensei em músicas inspiradoras, aí lancei primeiro um ''É melhor ser alegre que ser triste'' de Vinícius de Moraes; em seguida um '' Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar'' de uma música cantada pelo Cartola; e depois um ''Pra quê rimar amor e dor?'' de uma música cantada pelo Caetano Veloso... e a noite foi longa... escrevi mais algumas coisas e a última lata acabou também.
Eu pareço satisfeita, mas nunca consegui dizer o que eu queria para ti, eu dizia para a cidade, mas nunca olhando nos seus olhos, e sim para os muros cinzas e amarelados. Me torna covarde por não dizer isso diretamente a você? Mas vai que eu posso até morrer de tanto guardar isso? Se fosse pra morrer seria melhor se eu fosse um tanto como Morrissey dizia: ''Morrer ao seu lado seria uma deliciosa maneira de morrer''...
Quando notei lá pelas 5:55 da manhã, já estava amanhecendo, e eu super cansada, caminhei para o terminal rodoviário do centro da cidade, e foi aquele incrível paradoxo de esperar um ônibus chegar. Eu não estava sozinha esperando, tinha próximo a mim, um moço de uns 25 com barba por fazer lendo jornal, uma senhora bem idosa parecendo mal humorada e uma menina meio sonolenta.
Uma espera de aproximadamente uns 15 minutos, chegou o ônibus, e fomos embarcar. Me sentei numa janela de um banco para apenas uma pessoa, eu via da janela aquele incrível contraste de concreto e cor, pessoas passando, comércios abrindo, e o dia seguindo normalmente como uma rotina. Eu via aquilo tudo e nunca me dou por satisfeita, seria melhor ainda se você soubesse que todo esse tempo gasto com poesia e frases de amor é por você.

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